(500) Dias com Ela


“Esta é uma história ‘garoto encontra uma garota’”. As primeiras oito palavras do narrador tentam definir o filme. O que poderia, no entanto, ser uma comédia romântica comum não atinge esse nível de obviedade porque subverte os clichês do gênero. “500 Dias com Ela” aproxima-se dos dramas realistas de Woody Allen somados ao universo pop do autor inglês Nick Hornby.

O garoto é Tom, um redator de cartões comemorativos, que se apaixona a primeira vista pela nova secretária do chefe, Summer. A moça é tudo o que ele sempre sonhou: bonita, inteligente e, ainda por cima, gosta das mesmas músicas, livros e filmes que ele. A garota Summer é uma mulher independente, livre de escolhas e com pensamentos tipicamente masculinos. Não acredita no amor, julga-o um “conto de fadas” e, por isso, possui uma facilidade tremenda em cortar as pessoas de sua vida – assim como corta seus cabelos que tanto adora.

Essa diferença de personalidade faz com que ele idealize um romance mais profundo do que a relação que está se desenvolvendo. Os 500 dias de Tom, iluminados pela presença de Summer, são contados fora de cronologia, intercalando os perfeitos e conturbados momentos do casal. Esse dinamismo torna-se essencial para o ritmo da trama, mantendo um clima agradável, que caso fosse relatado na ordem dos fatos jamais existiria.

A passagem do tempo é realizada através de uma animação introdutória, na qual os dias felizes do casal são apresentados com um céu limpo, as árvores floridas e um sol intenso. É verão para Tom! Quando o relacionamento está ruindo, vemos um dia cinzento e a falta de folhas nas árvores. Assim, já sabemos de antemão o que o personagem está sentindo e quais cenas virão a seguir. Os encontros do rapaz apaixonado com a cética garota fará com que os dois reflitam sobre o devastador sentimento do amor, colocando em xeque se é o destino que conspira ou se são as coincidências que norteiam as suas vidas.

O tema relativamente denso para um filme “adolescente” rende comparações à Woody Allen e sua visão menos poética do universo. Semelhanças com os filmes do diretor, como “Crimes e Pecados”, “Match Point” e especialmente “Igual a Tudo na Vida”, que coloca dois jovens conversando sobre o relacionamento, são muito claras. Em certo momento, a tela se divide em “realidade” e “expectativa” mostrando que nem sempre o que desejamos realmente acontece. Homenagem captada.

A menção à Nick Hornby é justificada pela presença de inúmeras referências a cultura pop, em diálogos sobre Beatles, The Smiths, Sex Pistols, o seriado televisivo “Night Rider”, o filme “A Primeira Noite de Um Homem”, Bruce Springsteen, entre tantos outros. Talvez sejam esses gostos similares que tenham aproximado o casal, porém isso definitivamente não é tudo em um relacionamento. Como diz um dos personagens para Tom: “não é só porque ela curte as mesmas bizarrices que tu que ela é a mulher da tua vida”.

Também não seria possível um filme tão completo se não fosse a presença do ótimo Joseph Gordon-Levitt e da encantadora Zooey Deschanel. A sintonia perfeita entre o casal ganha o público no primeiro instante em que é demonstrada em cena. Joseph já havia provado que pode carregar um filme nas costas com “O Vigia” e o brilhante “Mistérios da Carne”; já Zooey, que sempre demonstrou ter mais dotes físicos do que artísticos – vide a péssima atuação em “Fim dos Tempos” – tem em Summer o papel de sua carreira.

Como acréscimo nessa fantástica composição, tem-se ainda uma trilha sonora em conexão quase sobrenatural com a história. As faixas são de extrema importância para a construção das cenas e, em sua maioria, reverenciam artistas indie como Regina Spektor, Doves, Feist, Smiths e She & Him – excelente banda de Zooey Deschanel (se você nunca ouviu falar, baixe o cd imediatamente).

O responsável pela originalidade do produto é o diretor estreante Marc Webb, que tem no seu currículo uma série de videoclipes. A bagagem do cineasta é reproduzida na consecutiva utilização de mini-cenas que compõem o painel dos vários dias ao lado da amada. Após o sucesso do filme, o nome de Webb está em alta e uma nova adaptação do musical “Jesus Cristo Superstar” ganhou o seu comando.

Para o público que aguardou tanto por esse filme, “500 Dias com Ela” supera as expectativas e faz o retrato dessa nova geração “cult” na busca pelo amor. Mas não adianta tentar se enganar ao esperar pelo convencional. As intenções do filme estão explícitas nos primeiros minutos. Pode ser que Summer não tenha sido a mulher que Tom tanto procurou, mas os dias em sua companhia certamente foram inesquecíveis –assim como serão as quase duas horas dedicadas pelo espectador com o filme.

Nota: 9,5

3 comentários:

pirs disse...

Cadê os Bastardos Inglórios? Postae!

Francisco Lima disse...

pior. cadê Bastardos? quero ler o que tens a dizer... :)

e sobre 500 Day Of Summmer (em inglês mesmo porque, apesar do título em português ser bom, não vale a tradução), achei cativante e filosófico. até no nome. justamente por isso acho que não precisa traduzir. adorei. :D

pedro villar disse...

Cara, de novo eu pra encher o saco em um filme que tú adora. Mas, sei lá, não achei essa maravilha toda.
É um bom filme, acima da média no reino das comédias românticas, o que por si só não é grande coisa.
E só. Achei inclusive meio clichê, embora com uma embalagem supostamente nova.
Não é ruim, mas esquecível.

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